Mais um dia cansativo no Jornal da cidade e eu voltava as pressas para casa. Um fim de tarde de outono. Ventos gélidos que balbuciavam no corpo causando calafrios. Caminhando as pressas para poder alongar as horas e chegar em casa, preparar o jantar e dormir cedo. Fazendo meu trajeto rápido e a desviar das pessoas, ouço uma voz suave e tranquilizadora, um canto perdido no ar, fazendo-me automaticamente caminhar devagar, tão devagar que esqueci do porquê de estar as pressas. Fui tentando localizar de onde vinha aquela canção, muitas pessoas estavam ao meu redor e à minha frente. Centro da Cidade, horário de voltar para casa e esperar por mais um dia corrido. Fui procurando-o, -estiquei o pescoço- e enfim encontrei o dono dos acordes e da voz que tinha tom de algodão. Um violão surrado, casaco preto um suéter quadriculado por baixo, cachecol que abraçava e protegia sua epiderme do frio. Seus traços eram fortes, tinha um barba rala, olhos cor de mel e o cabelo castanho médio. Me aproximei -não muito-. Fiquei observando-o tocar e cantar, ele segurava seu violão com tanta delicadeza, parecia que cada acorde era um verso de poesia que era recitada pelos seus dedos hostis. Algumas pessoas colocavam moedas na caixa do violão e ele agradecia com um sorriso entre o canto. Eram sorrisos de gratidão e isso era explicito no lampejo de seu olhar. Algumas pessoas cantarolavam com ele, e um clima amistoso pairava naquele momento. Me aproximei e arisquei tentar acompanhar com a voz baixa. Até que seu canto fora se findando aos poucos, já era hora de ir embora. Todos o aplaudira inclusive eu; Ele fazia gestos de agradecimento e apertava a mãos de alguns apreciadores daquele canto que tranquilizava pelo menos uma pequena parte daquela tarde eufórica e corrida. Ele se despedira das pessoas agradecia pelas moedas e algumas notas de reais. Todos foram saindo até não ter mais ninguém ao seu redor, mas eu ainda continuava lá, e não sabia o porquê. De alguma forma me entristeci por ter acabado, aquele canto me cativou e eu o ouviria por noites e dias. Foi então que o estranho notou que, eu era a unica que restava no fim de seu espetáculo simples das ruas. Ele me olhou e deu um sorriso minucioso que me deixou desconcertada, senti minhas bochechas esquentarem e corar, -desejei não estar ali naquele momento-, mas retribui o sorriso de canto acanhada, ele então se aproximou um pouco e tirou não sei de onde uma flor, e a estendeu para me entregar. Aquele gesto me surpreendeu, meio sem jeito eu peguei a flor e agradeci gentilmente envergonhada. Então eu disse a ele com um tom gracioso de que, ele era muito talentoso e que suas canções tinham gosto de algodão doce. Ele deu um riso leve e agradeceu. Já estava escurecendo, as nuvens já estavam a se ponderar e o pôr do sol já estava se realizando por entre os prédios do Centro da cidade. Ele então perguntou-me qual era meu nome eu respondi, e assim fiz o mesmo perguntei-lhe o nome e ele me respondera. Nos cumprimentamos com aperto de mãos e sorrimos gentilmente. Foi então que me deu conta da hora, já estava ficando tarde e eu tinha de ir para casa, foi então que a pressa tomou conta de mim novamente. Olhei para o relógio com ar de preocupada . Ele sorriu e disse que tinha que ir embora, eu lhe disse o mesmo, apertamos as mãos mais uma vez e nos despedimos. Ele pegou seu violão já guardado e foi se distanciando vagarosamente, até que eu gritei não muito alto, perguntando se eu o veria no dia seguinte tocando novamente; Ele então sorriu de longe e disse que ''Sim'' . Eu sorri tranquila com a flor que ele me dera. No outro dia o mesmo fim de tarde, e sua canção pairava no ar trazendo com si uma tranquilidade que parecia magica, não me importei de ficar lá até ele ir embora novamente, havia algo na sua voz , na intensidade de suas palavras, os acordes me deixavam desconcertadamente concertada. E os sorrisos e rápidos apertos de mãos se prolongavam por muitas tardes. Até que um dia ele me convidara a ir à um café, que se encontrava não muito distante de nós, eu aceitei o convite e fomos até lá. Ele era muito gentil e atencioso, a forma que falava era metodicamente encantadora e eu de uma forma estranha gostava daquilo. Entramos na cafeteria, sentamos e iniciamos uma conversa amistosa. Então o perguntei o que ele fazia, ele disse que era compositor e que trabalhava em um estúdio musical. Eu me espantei, e me fiz uma alto pergunta em pensamento, ''se ele trabalha em um estúdio porquê toca no centro da cidades por moedas?'', foi então que meu pensamento foi interrompido pelo riso e um sorriso pretensioso dele. Ele então disse: '' Você deve estar se perguntando o porquê deu estar todas as tardes no centro da cidade. Não é?'' Eu dei um sorriso apertado e desajeitado e disse: '' Pois é, eu queria entender, me desculpe'', e sorri apertado. Ele: ''Eu não faço isso por mim, na verdade faço isso para ajudar outras pessoas.'' Eu ainda não havia entendido. Eu: ''Ajudar outras pessoas?'' , Ele: ''Exatamente, eu ajudo umas crianças de um hospital do centro da cidade, tratam de crianças especiais e com doenças que as privam de ter uma vida ''social'' com outras. O dinheiro do estúdio não ajuda muito, então como amo o que faço decidi conseguir dinheiro tocando no centro da cidade.'' Fiquei inerte, me perguntei de onde havia saído aquele homem, eu devia estar sonhando e prestes a acordar, mas o despertador não tocou, e ele realmente existia. E sua intenção era mais verdadeira ainda. Prolongamos o assunto conversamos por algumas horas, rimos, trocamos informações e aprendizados. Ele era impressionante, me fazia se sentir em paz, como se aquele momento girasse em sintonia com tudo que há de belo no mundo. Ele apreciava tudo, e era admirador da arte tanto concreta quanto abstrata, era alucinantemente apaixonante pela forma que via o mundo. Não é difícil se apaixonar por um homem que nota as coisas e que ainda sente elas. Eu pela primeira vez havia reacendido uma luz no coração que a tempos estava apagada, por nunca ter tido motivos para acende-la. Eu acordava com vontade da tarde, só para poder ouvir sua voz dançar nas curvas do vento e me sentir em paz.
22:41 , 26 de janeiro de 2013
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