segunda-feira, 2 de junho de 2014

Little big thing

5:00 da manhã. O sol ainda não aparecera -céu pincelado com um azul marinho embriagante-. A estação de trem estava pouco movimentada, as pessoas provavelmente começariam a chegar por volta das 6:30. Sentada no banco de madeira, esperei pacientemente pelo trem, retirei o livro que lia pela terceira vez. 5:40 da manhã, o sol estava invadindo o azul-marinho, a fusão de cores era incrivelmente surpreendente, meus olhos mal podiam crer, me senti privilegiada, arte literal, natural; Van gogh que me desculpe, nenhum  quadro seu foi tão fascinante quanto a aquele nascer do sol - passado alguns minutos-, eu já ouvia o trem se aproximar, a chaminé o tremor do trilhos. Ao redor haviam pessoas bocejando, algumas com café expresso. Estavam de pé, mas seu semblante parecia dormir. A estação ganhou uma movimentação assustadora, haviam pessoas por todos os lados, barulho de gente falando ao mesmo tempo. Entrei no vagão, sentei ao lado da janela, era lindo ver o verde, os ipês-amarelos. Pessoas entravam a todo momento, os acentos estavam todos preenchidos - sinal, aviso de partida-. Sinto me impulsionar levemente para frente com a saída do trem, olhando pela janela vejo toda a vegetação, as nuvens. Coloco o livro sobre a mesinha a frente. Faço anotações. Não via a hora de chegar ao meu destino. O trem parou umas 2 estações: a terceira era a minha, -última parada-, ouvi. Pego minhas coisas e me posiciono para sair. Caminho alguns minutos até chegar na escolinha do pequeno vilarejo de Vila nova, habitavam ali umas 250 pessoas. A maioria adulta, que mal sabia escrever o primeiro nome. Você deve se perguntar '' de onde conheceu esse lugar?'' e, '' o que faz?''. Tudo começou quando recebi um pedido inesperado e inusitado. Estava eu na colégio de minha cidade San Gonçalo, quando me aparece um garotinho de 7 anos. No pátio da escola o menino estava com sua mãe, notava-se a simplicidade dos dois, de chinelinho, com uma roupa amassadinha e desbotada, o pequeno observava a interação dos alunos na aula de Artes, na qual era realizada todas as quartas-feiras no pátio. Alunos corriam, pintavam, desenhavam, e riam.O menino, no entanto, calado olhava tudo, seus olhos pareciam até brilhar de fascinação. Confesso, a carinha dele me chamou muita atenção, mas, continuei com os alunos, até que, distraída sinto algo me tocar a costela. Me viro abruptamente, para minha surpresa, era ele. -Olá. disse ele sorrindo. -Olá!. retribuo com surpresa. -O que deseja? pergunto. - Eu posso pintar?. -Ah, claro que sim! Gosta de pintar? pergunto. - Gosto. diz com um sorriso que ia de orelha a orelha. -Tome, aqui está uma folha, as tintas estão sobre a mesa, assim como o pinceis. -Como você se chama? pergunto. -Emanuel. Diz, já sentado na mesinha com a folha e os pinceis na mão. -Muito prazer Emanuel. Me chamo Elisa: ele sorri. Passados alguns minutos, a mãe de Emanuel, corre até o menino. -O que está fazendo? pergunta como se ele estivesse fazendo algo de errado. -Estou pintando, disse ele, com os olhos estreitos de medo. -Pare já com isso, se você quebra algo, como iremos pagar...Vejo a movimentação, me aproximo deles. -Olá, algo de errado? pergunto solene. -Ainda bem que não, desculpe professora, ele é incontrolável. Diz segurando-o pelo braço. -Fique tranquila, eu permiti. -Viu mãe! Ela deixou. diz Emanuel assentindo de satisfação -Vamos já está tarde, só Deus sabe que horas chegaremos em casa, se perdermos o trem onde ficaremos?! Vamos Emanuel!disse a mãe, puxando o garoto que se agarrava à folha suja de tinta. - Esperem! digo. Onde moram? posso leva-los para casa, já vai dar o horário de dispensar as crianças...-Não se preocupe professora, diz a mãe. Moramos bem longe não há estradas de acesso, só de trem mesmo. -Me digam, onde moram, exatamente? pergunto insistindo. A mãe do garoto suspira. -Olha, obrigada pela cortesia, mas temos que ir. Noto que eu ela uma certa dificuldade em pronunciar a palavra ''cortesia'', e um ceto constrangimento por parte dela. O sol já preparava-se para se pôr, estava ficando tarde. A preocupação da mãe de Emanuel com a hora de chegar em casa era explicita. -Temos que ir! tchau, desculpe por ele -gesticula-. Saindo em passos largos com aparente pressa. Em minha casa passei boa parte da noite pensando no menino e sua mãe.  Na manhã seguinte, pergunto a diretora do colégio se ela sabia algo sobre Emanuel e sua família, fico perplexa com as informações, Emanuel não estudava, por falta de escolas no vilarejo, o difícil acesso ao local fazia com que professores que eram chamados para ir prestar assistência desistissem. Haviam cerca de 70 crianças sem acesso ao ensino. Achei um absurdo. Conversei com a diretora da escola, e disse a ela que eu me candidatava para alfabetizar aquelas crianças, e quem quisesse, eu só não podia ficar de braços cruzados. A diretora não me deu créditos de imediato.-Você tem certeza?, disse ela. -Porque não? digo. -Você sabe quantos professores eu já mandei para lá, e todos desistiram?.- Não importa, eu quero ajudar aquelas pessoas. -É um longo trajeto, terá que acordar cedinho para poder chegar até lá. Será que aguenta o cansaço? -Eu sei. Mas quero tentar, me permita isso, por favor. -Tudo bem, diz ela, depois de um  longo suspiro. Já fazem dois anos que estou indo todos os dias ao vilarejo de Vila nova, nunca me senti tão realizada e satisfeita. Nunca esquecerei tamanha felicidade dos habitantes daquele lugar, principalmente das crianças, será impossível tirar o sorriso escancarado do Emanuel quando dei a noticia de que ia ser professora dele, e das outras crianças: as mãos sujas de tinta, o empenho, a felicidade. No início foi difícil, árduo, muitos chegaram a duvidar que eu fosse ficar mais de uma semana lá, e já passaram-se dois anos, continuo firme. Me dedicar a formação dos adultos e principalmente das crianças foi umas das melhores coisas que fiz, muitos professores ficam na sua zona de conforto, como educadores deveriam se compadecer disso, democratizar o ensino, levar conhecimento, esperança para quem já as perdeu. Emanuel obtêm um talento para a pintura surpreendente, já fez pinturas minhas, dezenas de vezes e, sempre faz uma pequena dedicatória que faz-me os olhos enxerem d'água : ''Para a professora fada-amadrinha mais especial do mundo, obrigado por estar aqui todos os dias, eu te amo, Emanuel.''

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